Falando sobre TDAH no ofício pastoral

Falando sobre TDAH no ofício pastoral


O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a regulação da atenção, dos impulsos e da atividade motora. Não se trata de falta de inteligência, de caráter ou de fé; trata-se de um cérebro configurado para processar o mundo em ritmo e intensidade diferentes. A dopamina, neurotransmissor responsável pela motivação e pelo senso de recompensa, funciona de maneira distinta no cérebro com TDAH, o que explica por que certas tarefas parecem impossíveis enquanto outras absorvem a pessoa por horas a fio, com um hiperfoco surpreendente. Só o nosso Deus é capaz de propor tal diversidade na criação (Êxodo 4.11,12).

O pastor que convive com o TDAH enfrenta desafios singulares no exercício do seu chamado: a preparação de sermões pode ser interrompida por uma mente que salta entre ideias com velocidade incomum; reuniões de aconselhamento exigem atenção sustentada que o cérebro neurodivergente nem sempre oferece com facilidade; e a gestão administrativa da igreja, junto com atas, prazos e agendas, frequentemente se torna um campo de batalha silencioso contra o esquecimento e a procrastinação.

Moisés, ao receber de Deus a tarefa de liderar Israel, reconheceu suas limitações e, por conselho de Jetro, estabeleceu um sistema de delegação e organização que preservou tanto sua saúde quanto a eficácia do ministério (Êxodo 18.17-23).

Neemias, diante da reconstrução de Jerusalém, não confiou apenas no ímpeto espiritual: elaborou listas, definiu turnos, distribuiu responsabilidades e trabalhou com método rigoroso (Neemias 3-4). Há aqui um princípio que também devemos reconhecer: a disciplina não é inimiga da inspiração, mas sua guardiã.

Para o pastor com TDAH, estabelecer uma rotina pastoral não significa aprisionar a criatividade; é criar um caminho sobre o qual ela pode correr com segurança. Práticas como reservar tempo para estudo bíblico nos horários de maior concentração do dia, utilizar ferramentas visuais de planejamento semanal, dividir a preparação de sermões em etapas curtas distribuídas ao longo da semana e contar com um auxiliar de confiança para lembretes e organização administrativa não são sinais de fraqueza, mas de sabedoria pastoral. Como Paulo ensinou a Timóteo: “Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, de amor e de moderação” (2 Timóteo 1.7). O termo grego sophronismós, traduzido como “moderação”, carrega em si a ideia de uma mente disciplinada e bem ordenada - exatamente aquilo que a rotina pode oferecer ao líder que aprendeu a trabalhar com, e não contra, a maneira como Deus formou seu cérebro.

Uma igreja acolhedora demonstra um Deus acessível, e uma das formas mais concretas de expressar essa acessibilidade é por meio de uma liturgia bem estruturada e comunicada com antecedência. Para a pessoa com TDAH, cada decisão não planejada consome energia cognitiva: “A que horas começa?”; “Quanto tempo vai durar?”; “Qual será a sequência do culto?”; “Preciso levar algo?”. Quando a direção da igreja estabelece e divulga previamente a programação, horários definidos, ordem do culto impressa ou projetada e duração estimada de cada momento, ela elimina dezenas de micro-decisões que drenam o cérebro neurodivergente antes mesmo do louvor começar.

É importante ressaltar que propor uma liturgia organizada não significa sugerir um culto engessado, mecanizado ou desprovido da presença e da direção do Espírito Santo. A ordem não é inimiga da unção, mas sua aliada. O mesmo Paulo que escreveu “faça-se tudo decentemente e com ordem” também instruiu: “Não apagueis o Espírito” (1 Tessalonicenses 5.19). As duas exortações coexistem sem contradição porque servem ao mesmo propósito: que o culto edifique a todos. Estrutura e sensibilidade espiritual não competem entre si; caminham juntas. Deus tem total liberdade para operar no meio da Sua Igreja, e nenhuma programação humana limita a soberania daquEle que faz “infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos” (Efésios 3.20). O que se propõe aqui é simplesmente um ponto de partida organizado. Até o Pentecostes, o maior derramamento do Espírito na história da Igreja, aconteceu quando os discípulos estavam “todos reunidos no mesmo lugar” (Atos 2.1), em unidade e propósito, não em caos. A ordem prepara o ambiente; o Espírito o preenche.

Por fim, cabe lembrar com toda educação e respeito que, embora devamos adaptar nossos ambientes e a nós mesmos para acolher com dignidade aqueles que convivem com o TDAH ou qualquer outra condição, jamais podemos nos acomodar. Adaptar-se é sabedoria; acomodar-se é resignação. O pastor carrega a função inegociável de orar pelos enfermos, crendo que o Deus que “sara todas as tuas enfermidades” (Salmo 103.3) não perdeu nem um fragmento do Seu poder. Jesus não apenas acolheu os que sofriam; Ele os curou. E o fez no tempo dEle, segundo a Sua soberania, mas nunca deixou de fazê-lo. Tiago nos instrui com clareza: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele” (Tiago 5.14). Não há diagnóstico que esteja além do alcance das mãos de Deus. Enquanto nos preparamos, estudamos e adaptamos nossas igrejas, fazemos tudo isso com os olhos firmados em Deus, que ainda cura toda doença, todo transtorno e toda enfermidade. Porque Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hebreus 13.8).

Que o TDAH no ofício pastoral não seja mais um tema silenciado, mas uma oportunidade para a igreja demonstrar na prática aquilo que prega: um Deus que acolhe, capacita, transforma e cura. Que tenhamos a coragem de falar, a humildade de aprender e a fé de crer que nenhuma mente está fora do alcance de Deus.

por Gil Dias

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