Critérios bíblicos para saber em quem votar

Critérios bíblicos para saber em quem votar


Se a igreja for devidamente esclarecida à luz das Escrituras, naturalmente a igreja terá discernimento, não votando em candidatos e/ou partidos que sejam contra nossos princípios e valores

Num primeiro momento, antes de adentrarmos ao tema central, é necessário que nos conscientizemos de alguns pontos de suma importância.

O mundo vive grande crise de polarização política, uma divisão ideológica que invadiu casamentos, famílias, grupos de amigos e até mesmo igrejas locais, provocando cisões e inimizades entre irmãos biológicos e de fé.

A bem da verdade, durante muitos anos, a máxima de que “Crente não se envolve com política” ou “Política é coisa do Diabo” fez com que a maioria dos cristãos evangélicos atuais crescesse com uma visão superfi­cial sobre a política e atingisse apenas uma fi­liação religiosa sobre o tema, com um histórico de a igreja não discutir política com profundidade. Consequentemente, essa atitude formou um público evangélico que, em geral, não é bem-informado sobre o tema em foco, de maneira a ­ficar alienado. Entretanto, por conta da obrigatoriedade, muitos votam de forma errada ou de forma descompromissada com nossos princípios e valores. Isso nos leva a aceitar a ideia de que, se o Cristianismo tem pouco a argumentar sobre política, por conseguinte também tem pouco a contribuir com ela, o que não é verdade.

Por outro lado, uma visão teocrática para a política atual, onde se apela a usar o Estado para obrigar pessoas à fé cristã, não é correto e nem se evidencia como possível no mundo real. Da mesma forma, silenciar e se omitir de falar da fé cristã na esfera pública, curvando-se a ideologias, não se constitui um elemento hermenêutico político correto para a igreja escolher. Igualmente, demonizar a política, aferindo a ela uma posição de igualdade com qualquer coisa má, não produz benefícios à igreja e nem contribui para um crescimento saudável em política de seus fi­éis.

A Igreja, como organismo, realmente não precisa da política, pois ela está alicerçada e fi­rmada em Jesus, nosso Senhor, pois Ele mesmo disse: “Também eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16.18). A Igreja de Cristo é ainda aquela que não renuncia aos princípios éticos exarados nas Sagradas Escrituras e, para tanto, seguirá e servirá o Senhor independente das circunstâncias, do tempo e das adversidades. Já quando falamos da igreja local, a igreja como organização, ela deve estar estabelecida de acordo com a legislação e normas vigentes do país onde está sediada, e se submeter às autoridades constituídas, e essa autoridade governamental é exercida pelos políticos. Sobre isso, a Bíblia diz: “Que todos estejam sujeitos às autoridades superiores. Porque não há autoridade que não proceda de Deus, e as autoridades que existem foram por ele instituídas. Assim, aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus, e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Você quer viver sem medo da autoridade? Faça o bem e você terá louvor dela, pois a autoridade é ministro de Deus para o seu bem. Mas, se você ­fizer o mal, então tenha medo, porque não é sem motivo que a autoridade traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar quem pratica o mal. Portanto, é necessário que vocês se sujeitem à autoridade, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. É por isso também que vocês pagam impostos, porque as autoridades são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço. Paguem a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra” (Romanos 13.1-7).

Quando o apóstolo Paulo fala sobre sujeição à autoridade, não está se referindo simplesmente à homens como pessoas físicas, mas à responsabilidade outorgada aos tais. Na velha aliança, tais funções eram outorgadas pelo próprio Deus, mas, hoje, no caso do poder público, são delegadas pelos eleitores através do voto. O voto do cidadão é a procuração para que os políticos governem durante a gestão do seu mandato.

Em 22 de fevereiro de 2013, a Assembleia de Deus realizou o 1º Fórum para Prefeitos e Vereadores do Projeto Cidadania AD Brasil. Participaram do evento membros da Comissão Política da CGADB, além de vereadores e prefeitos pertencentes à igreja em todo o país. Naquele evento, este articulista, na condição de membro da comissão, defendeu que “muito embora a igreja não precise da política, à medida em que é uma instituição formada por cidadãos e, para o exercício de suas atividades, requer a construção de templos para o exercício das suas atividades, logo plantas, alvarás de licença, CNPJ, contabilidade, liberdade religiosa e de expressão, para tanto, deve exercer a cidadania por meio de representação política. Saliento ainda que a igreja precisa ter representantes para defendê-la não como organismo vivo de Cristo, mas como instituição jurídica devidamente estabelecida na nação”.

Temos a impressão de que, a partir daí, por falta de conscientização e/ou de uma doutrinação mais abrangente, alguns cristãos entraram na política com motivações espúrias ou duvidosas, o que proporcionou escândalos, vergonha e desestímulo nos eleitores. Em outros, a abstinência política por décadas gerou sede desenfreada pelo poder e, por último, temos a polarização ideológica já aqui citada, que levou muitos a exageros e até mesmo à certa idolatria.

Em que pese tenhamos a necessidade de nos posicionarmos como cidadãos, não podemos nos esquecer que a igreja não é curral eleitoral, o púlpito não é palanque e não temos votos de cabresto. Num sentido mais amplo, o que precisamos focar e ensinar a tempo e fora de tempo é que a Igreja trabalha com princípios e valores:

1. Cremos na família tradicional e somos a favor da valorização do casamento à luz das Escrituras Sagradas – Gênesis 2.24;

2. Somos contra a relativização dos valores éticos e morais, somos a favor da verdade absoluta, somos criacionistas e contra a ideologia de gênero – Gênesis 1.27;

3. Somos a favor da vida e contra o aborto – Salmos 139.13-15.

A partir desses princípios e valores estabelecidos por Deus através da Sua inerrante Palavra constante na Bíblia Sagrada, nossa regra de fé e prática, começamos a revelar o espectro do pensamento ideológico daqueles em quem devemos votar.

Na esteira das grandes transformações que caracterizam o mundo atual, a Igreja precisa crescer na graça e no conhecimento de Deus, para que tenha sabedoria e discernimento na hora da escolha dos seus candidatos.

Infelizmente, há cristãos que, pelos seus interesses políticos – como facilidade de legenda, quociente eleitoral e outros – se ­filiam a partidos que negam e trabalham contra o princípio da fé que dizem professar e, portanto, quando ganham a eleição, se esquecem do eleitorado que os elegeu e se tornam reféns do partido que lhes proporcionou espaço e legenda.

É importante que os crentes procurem tomar conhecimento sobre o que pensam tais candidatos sobre esses e outros temas de tamanha relevância para nós. Ter aparência, vestir-se e dar a “Paz do Senhor” como um evangélico não garante que tal candidato pensa como nós ou, em chegando lá, defenderá nossos princípios e valores.

As motivações políticas do candidato, assim como as do eleitor, não podem ser baseadas em seus interesses particulares e ou congregacionais (tipo emprego, material de construção etc.). A­nal de contas, o foco é o interesse público e nossos valores e princípios, e não locupletação. O início dessa jornada pode parecer lucrativo, mas o ­final será trágico, e é o que temos visto. A Bíblia diz: “Melhor é o ­fim das coisas do que o seu princípio; a paciência é melhor do que a arrogância” (Eclesiastes 7.8).

Não há dúvida de que é melhor e producente quando um justo governa: “Quando os justos se multiplicam, o povo se alegra; quando o ímpio domina, então o povo lamenta” (Provérbios 29.2). A questão é saber se esse termo “justo” se aplica ao candidato escolhido.

Quando não analisamos esses fatores e votamos em candidatos que não pensam como nós, mas pensam exatamente o oposto, assinamos uma procuração para que sejam contra tudo que prezamos – ou mesmo nós – durante sua gestão. Outra postura que deve ser exigida em quem pretende nos representar é fi­rmeza em suas convicções.

Alguns ícones da história bíblica são citados nas campanhas eleitorais como servos do Senhor que se tornaram exemplos na vida pública, como forma de justificar a participação dos evangélicos atualmente. José, como govenador no Egito, é um dos favoritos, mas vejamos que ele honrou a Deus nas circunstâncias mais adversas da vida, por isso “o Senhor era com ele” como mordomo na casa de Potifar (Gênesis 39.2-4), na prisão (Gênesis 39.21-23) e na tentação (Gênesis 39:8-10).

Muitos citam também os jovens hebreus na Babilônia como exemplos de participação na vida pública, mas se esquecem que eles não se venderam pelas facilidades da Babilônia: “No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, Nabucodonosor, rei da Babilônia, veio a Jerusalém e a sitiou. O Senhor entregou nas mãos dele Jeoaquim, rei de Judá, alguns dos utensílios da Casa de Deus. Nabucodonosor levou esses utensílios para a terra de Sinar, para o templo do seu deus, e os pôs na casa do tesouro do seu deus. Depois, o rei ordenou a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos ­filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, sábios, instruídos, versados no conhecimento e que fossem competentes para servirem no palácio real. E que Aspenaz lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus. O rei determinou que eles recebessem uma alimentação diária tirada das ­nas iguarias da mesa real e do vinho que ele bebia. Os jovens deveriam ser educados ao longo de três anos e, ao fi­nal desse período, passariam a servir o rei. Entre eles, se achavam Daniel, Hananias, Misael e Azarias, que eram da tribo de Judá. O chefe dos eunucos lhes deu outros nomes, a saber: a Daniel, o de Beltessazar; a Hananias, o de Sadraque; a Misael, o de Mesaque; e a Azarias, o de Abede-Nego. Daniel resolveu não se contaminar com as ­iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; por isso, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não se contaminar. E Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos” (Daniel 1.1-9).

Daniel, em função privilegiada e praticamente já com 80 anos de idade, não abriu mão de orar a Deus três vezes ao dia da janela do seu quarto sendo levado à cova dos leões, mas não abriu mão da sua fé. Deus não o livrou da cova, mas o livrou da boca dos famintos leões. Seus amigos, Hananias, Mizael e Azarias, não se prostraram diante da estátua do rei Nabucodonosor, colocando em risco seus cargos e a própria vida, e, portanto, foram lançados na fornalha. Deus não os livrou da fornalha do rei aquecida sete vezes mais, no entanto os livrou dentro da fornalha, apagando a força do fogo, cumprindo-se aí a Palavra de Deus, quando diz: “Quando você passar pelas águas, eu estarei com você; quando passar pelos rios, eles não o submergirão; quando passar pelo fogo, você não se queimará; as chamas não o atingirão” (Isaías 43.2).

Outro caso, já no Novo Testamento, citado como exemplo, é o do senador José de Arimatéia: "Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimatéia, chamado José, que era também discípulo de Jesus. Este foi até Pilatos e lhe pediu o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que o corpo lhe fosse entregue. E José, levando o corpo, envolveu-o num lençol limpo de linho e o depositou no seu túmulo novo, que ele tinha mandado abrir na rocha; e, rolando uma grande pedra para a entrada do túmulo, foi embora” (Mateus 27.57-60). José de Arimatéia colocou sua imunidade parlamentar a serviço de Reino, e o que fez não foi às despensas do poder público: tanto o linho que envolveu o corpo do Senhor como o túmulo cedido foram frutos da sua generosidade.

Porventura os candidatos que citam tais passagens bíblicas para embasar seu pedido de voto à igreja teriam postura e ­firmeza sufi­ciente para defender sua fé nesse nível? Ou se venderiam, trocando suas convicções por quaisquer benesses, envergonhando, assim, o evangelho e a igreja do Senhor?

Por outro lado, as fragilidades verificadas em nosso meio na atualidade também não podem nos desencorajar a cumprir a nossa missão de “sal da terra” e “luz do mundo” em todos os seguimentos da sociedade, e isso, sem dúvida alguma, inclui a política.

Somos hoje milhões de cristãos nesta nação e, portanto, é necessário que tenhamos gente com base sólida e doutrinária para nos representar sem promover vexame ao nome de Jesus. Se os justos negligenciarem, haverá ímpios sufi­cientes que assumirão a missão. Portanto, necessário se faz colocar representantes nas esferas públicas políticas, e para isso alguns critérios devem ser estabelecidos pelo eleitor:

1. Considerar o qual é a ­filosofi­a do partido do candidato;

2. Pesquisar a história política do candidato, desde o início de sua carreira política, para saber de seu pensamento sobre política e compromisso com o eleitor;

3. Averiguar os seus feitos em favor da sociedade desde sua primeira eleição;

4. Ler com atenção seu programa de governo executivo ou legislativo e detectar se ele se aproxima dos princípios e valores cristãos.

A parábola de Jotão exemplifi­ca bem essa situação: “Certa vez as árvores foram ungir para si um rei. Disseram à oliveira: ‘Reine sobre nós’. Porém a oliveira lhes respondeu: ‘Deixaria eu o meu óleo, apreciado por Deus e pelos homens, para dominar sobre as árvores?’ Então as árvores disseram à ­figueira: ‘Venha você e reine sobre nós’. Porém a ­gueira lhes respondeu: ‘Deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto, para dominar sobre as árvores?’ Então as árvores disseram à videira: ‘Venha você e reine sobre nós’. Porém a videira lhes respondeu: ‘Deixaria eu o meu vinho, que agrada a Deus e aos homens, para dominar sobre as árvores?’ Então todas as árvores disseram ao espinheiro: ‘Venha você e reine sobre nós’. E o espinheiro respondeu às árvores: ‘Se é verdade que querem me ungir rei sobre vocês, venham e se refugiem debaixo de minha sombra. Mas, se não, que do espinheiro saia fogo que consuma os cedros do Líbano’” (Juízes 9.8-15).

Creio que devemos enfrentar o desafi­o de não falharmos no ensino do nosso povo sobre tema de tamanha relevância. Salomão diz: “Não havendo direção sábia, o povo fracassa; com muitos conselheiros, há segurança” (Provérbios 11.14).

Se a igreja for devidamente esclarecida à luz das Sagradas Escrituras, não será transformada em curral eleitoral e ninguém precisará determinar em quem os irmãos devem votar, pois naturalmente a igreja terá discernimento, não votando em candidatos e/ou partidos que sejam contra nossos princípios e valores. “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 7.21).

por Carlos Roberto Silva

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