Os anjos no Antigo e Novo Testamentos e a descrição dos anjos eleitos no texto bíblico
Coube a um autor desconhecido do Novo Testamento registrar, sob a inspiração do Paráclito, a melhor definição a respeito dos anjos de Deus: “E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Não são, porventura, todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” (Hebreus 1.13,14). Tomarei essa passagem emblemática como ponto de partida e de chegada para discorrer sobre a origem de todos os anjos e o ministério daqueles que guardaram seu principado (Judas v. 6), sendo confirmados como anjos de Deus (Hebreus 1.6), eleitos (1 Timóteo 5.21) e santos (Mateus 25.31; Apocalipse 14.10). Trata-se, pois, de uma abordagem sobre a angelologia, uma doutrina que nos leva a uma dupla reflexão. Se, por um lado, esses seres magníficos cumprem ordens divinas em nosso favor; por outro, a despeito da capacidade e do poder que se lhes conferiu, não devem nem podem ser adorados (Apocalipse 19.10; 22.9).
A origem dos anjos
Gênesis começa com a afirmação de que Deus criou os céus e a
terra “no princípio” (1.1), o qual não deve ser confundido com o “no princípio”
constante do prólogo do Evangelho autóptico e suplementar do Senhor Jesus: “No princípio,
era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram
feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (João 1.1,2). No primeiro
caso temos uma alusão à criação do Universo (cf. Hebreus 11.3); no último, o
apóstolo João se refere à preexistência de ho Logos, que estava com o Pai
celestial antes que o mundo existisse (cf. João 17.3-5). Se todas as coisas
foram feitas pelo Verbo de Deus, isso inclui — evidentemente — os anjos, como afirma
o apóstolo Paulo, em Colossenses 1.16: “nele [Cristo] foram criadas todas as
coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações,
sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele”.
Os anjos são seres morais, e não autômatos, feitos para
servir o Criador amorosa e voluntariamente (Salmos 148.5; 33.6; Neemias 9.6; Hebreus
1.7; Apocalipse 19.10). (1) Paulo chama os santos anjos de eleitos (1 Timóteo
5.21) não porque foram criados assim, mas porque, ao escolherem, ainda “no princípio”
mencionado por João, estar do lado do Senhor, foram confirmados como tais. Antes
do que se descreve a partir de Gênesis 1, todos os anjos criados pelo Verbo de Deus
haviam sido submetidos à prova, já que foram dotados de livre-arbítrio, e a
terça parte deles fracassou, não guardando sua primeira posição e indo após
Satanás, o principal anjo rebelde. Curiosamente, essa informação a respeito da
separação entre os santos anjos e os caídos “no princípio” se nos apresenta no
último livro das Escrituras, na revelação parentética acerca da perseguição de
Satanás a Israel, no passado, antes e após a encarnação do Verbo, e no futuro,
durante o período tribulacional, após o Arrebatamento da Igreja.
Em Apocalipse 12.3,4 está escrito: “E viu-se outro sinal no
céu, e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças, sete
diademas. E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu e
lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à
luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho”. Embora os verbos, aqui,
tenham sido empregados no tempo passado, sabemos, pelo contexto, que se trata
de uma referência ao fato de que os judeus (povo de Israel) — “mulher vestida
do sol” (v. 1) —, entre os quais o Verbo de Deus se encarnou (João 1.11-14),
têm experimentado grande perseguição por parte de Satanás, o Dragão (Apocalipse
12.7-9), o qual vem tentando de todas as formas, ao longo dos séculos, juntamente
com seus emissários (anjos caídos) frustrar os planos do Todo-poderoso.
Afirma-se ainda na revelação parentética que o Senhor Jesus apresentou
a João na ilha de Patmos, que o Filho da mulher vestida do sol — o Verbo
encarnado —, o qual “há de reger todas as nações com vara de ferro”, “foi arrebatado
para Deus e para o seu trono” (Apocalipse 12.5). Isso, sem nenhuma dúvida, é
uma referência à sua ascensão, logo após a conclusão de sua obra redentora (cf.
Atos 1.1-11). A partir daí, a revelação concentra-se na perseguição do Dragão e
seus anjos ao remanescente israelita, por ocasião da fase final do período
tribulacional (Apocalipse 12.6-17). Está implícito, aqui, o período da Igreja, o
lapso temporal referido com “o tempo dos gentios” (Lucas 21.24; cf. Daniel 9.24-27),
visto que, logo após a ascensão do Deus-Homem, o qual voltou para seu trono (Apocalipse
12.5), a mulher (povo de Israel) já aparece no deserto (na segunda metade do
período tribulacional), onde será “alimentada durante mil duzentos e sessenta dias”
(v. 6).
Diante do exposto, o Deus santo, antes da fundação do mundo,
“no princípio”, glorificou seus anjos, confirmando-os como santos e eleitos,
haja vista escolherem obedecer às suas ordens. Os “que mantiveram sua
integridade são descritos como confirmados em um estado de santidade e glória”.
(2) O Todo-poderoso também confirmou os anjos rebeldes como caídos, julgando-os
e condenando-os por antecipação. Estes, evidentemente, não podem mais
arrepender-se, já que, tendo sido criados originalmente como seres morais e
livres, escolheram rebelar-se contra o Criador (João 16.11; Mateus 25.31,41; Apocalipse
14.10). Portanto, os anjos eleitos, glorificados, foram dotados de especial sabedoria,
superior à dos homens (cf. 2 Samuel 14.20), essencialmente amorosa, tanto para adorar
ao Criador como também para auxiliar os que hão de herdar a salvação.
Os anjos de Deus nos Antigo e Novo Testamentos
Os anjos eleitos estão presentes em todos os períodos veterotestamentários.
Na era patriarcal, Abraão e Jacó, especialmente, tiveram várias experiências com
eles. O primeiro se encontrou com anjos em duas ocasiões, pelo menos (Gênesis
18.1-23; 22.1-17). Já o segundo esteve com eles três vezes (28.12; 32.1,24). Um
ser angelical apareceu à escrava egípcia Agar, quando ela andava com seu filho,
Ismael, no deserto (16.7-12). Os anjos também salvaram a Ló e suas filhas da destruição
de Sodoma e Gomorra (19.12-38). Observa-se, ainda, a assistência angelical na peregrinação
israelita para a Terra Prometida, especialmente no chamado de Moisés (Êxodo
3.1-6). Um anjo também foi enviado para dar-lhe proteção em seu regresso ao
Egito, a fim de libertar seu povo da escravidão (33.2).
Por ocasião da dramática travessia do mar Vermelho e a
condução do povo de Israel pelo deserto, os anjos tiveram papel destacado (Êxodo
14.19; 23.23). Mais tarde, um anjo falou com Josué, junto à mural ha de Jericó (Josué
5.13-15). Vemo-los, também, já no período dos juízes e dos reis de Israel,
atuando em favor dos servos do Senhor (Juízes 2.4; 6.11; 13.3; 2 Samuel 24.16; Isaías
37.36). O termo “anjo do Senhor”, nas páginas do Antigo Testamento, alude,
profeticamente, na maioria das ocorrências, ao próprio Verbo de Deus, antes de sua
encarnação, visto que os anjos como seres criados — diferentemente de “ho Logos”
— não recebem adoração (Josué 5.13-15; cf. Apocalipse 19.10) nem executam juízos
diretamente (Números 22.22), tampouco intercedem pelo povo de Deus como se fossem
mediadores (Zacarias 1.12; cf. 1 Timoteo 2.5).
O Antigo Testamento também dá destaque para a categoria angelical
dos querubins (Gênesis 3.24; Salmos 99.1; Ezequiel 10.1), informando, inclusive,
por analogia, que Satanás pertencia a essa ordem antes de sua queda (28.14).
Quanto aos serafins, só aparecem em Isaías 6.1-8 magnificando o nome de Deus
constantemente. No livro de Daniel, além de os anjos aparecerem com esse
profeta na cova dos leões (6.22), dois deles recebem menção especial, sendo pela
primeira vez, no texto sagrado, chamados por seus nomes: Miguel e Gabriel
(10.13; 12.1; 8.16). O primeiro, que é o único anjo chamado textualmente de
arcanjo em toda a Bíblia, é um príncipe que luta em favor de Israel (Judas v.
9; Daniel 10.13; 12.1; Apocalipse 12.7). Já o segundo, embora não seja chamado de
arcanjo, assiste diante do trono do Senhor (Lucas 1.19), sendo o intérprete dos
arcanos divinos (cf. Daniel 9.20-27).
Nas páginas neotestamentárias, ainda que os anjos apareçam
menos que no Antigo Testamento, seu ministério é descrito em detalhes. E a
prescrição dos apóstolos ensina, inclusive, que esses seres angelicais terão
uma participação muito especial nos eventos relacionados com a Segunda Vinda (2
Tessalonicenses 1.7; 1 Timóteo 3.6; 1 Pedro 1.12). Inicialmente, vemo-los atuando
no ministério do Deus-Homem, a começar pelo anúncio da sua encarnação, feito
pelo anjo Gabriel (Lucas 1.26,27). Em seguida, mencionam-se, por parte deles, a
proclamação do nascimento do Senhor aos pastores de Belém (2.9-11), bem como o
auxílio que prestaram a Jesus, após sua tentação no deserto: “eis que chegaram os
anjos e o serviram” (Mateus 4.11).
Os anjos acompanharam o Verbo de Deus desde seu nascimento até
sua ascensão, tendo papel importante em seus sofrimentos antes e durante a crucificação,
bem como em sua ressurreição (Lucas 22.43; 24.1-12). Após a ascensão do Senhor,
vemo-los confortando os discípulos e anunciando-lhes que Ele há de voltar da
mesma maneira que subiu (Atos 1.10,11). Aliás, o livro de Atos dos Apóstolos,
que tem sido chamado de Atos do Espírito Santo, também poderia ser chamado, em parte,
de Atos dos Anjos, já que dá grande ênfase ao ministério angelical. Eles aparecem
nesse quinto livro neotestamentário livrando os apóstolos (5.19,20; 12.7,8) e
auxiliando os pregadores do Evangelho (8.26; 10.3).
Descrição do ministério dos anjos eleitos
Os anjos eleitos cumprem as ordens de Deus – Em todas
as Escrituras vemos os santos anjos guiando, animando, livrando o povo de Deus e
suprindo suas necessidades (Gênesis 21.17-20; 1 Reis 19.5-7; 2 Reis 6.15-17; Daniel
6.20-23; 10.10-12; Mateus 1.20; 28.5-7; Atos 5.17-20; 12.5-10). Uma de suas
atividades principais, nos tempos do Antigo Testamento, foi levar mensagens aos
servos do Senhor (Daniel 9.20-24; Apocalipse 8.4). Ao apresentar a história de
rico e Lázaro, o Senhor Jesus ensina que as almas dos justos que morrem são
conduzidas por anjos ao lugar de repouso, o Paraíso (Lucas 16.22,23). Em sintonia
com a vontade divina, os santos anjos também interpretam visões espirituais (Zacarias
4.1; 5.5; 6.5; Daniel 7.15-27; 8.13-26). Ademais, entre muitas outras coisas,
eles podem controlar (cumprindo ordens do Senhor) as forças da natureza (Apocalipse
7.1; 16.3,8,9).
Os anjos eleitos não recebem adoração, mas adoram a Deus
– Ainda que eles sejam poderosos em obras, não devem ser adorados nem aceitam adoração,
visto que são apenas criaturas de Deus. Nesse sentido, são nossos conservos e, assim
como nós, têm o compromisso de adorar o Criador (Lucas 2.13,14; Apocalipse
19.10; 22.9). Somente Ele é digno de toda a honra e de todo o louvor (Salmos
33.6). A diferença entre nós e os anjos eleitos é que estes já foram glorificados;
em nós ainda habita o pecado. Por ocasião do Arrebatamento da Igreja, os salvos
serão glorificados, e estaremos livres para sempre da presença do pecado (1 Tessalonicenses
4.13-18; 1 Coríntios 15.50-58), assim como os anjos (cf. Mateus 22.30).
Portanto, não há como esses nossos conservos glorificados receberem adoração ou
tornarem-se idólatras. Mas, em nosso caso, precisamos vigiar para não adorarmos
criaturas, inclusive os próprios anjos (Romanos 1.25; Colossenses 2.18).
Os anjos eleitos executam juízos divinos – Eles existem
primordialmente para obedecer ao Deus trino (Neemias 9.6; Filipenses 2.9-11; Hebreus
1.6), glorificando-o em todo o tempo (Jó 38.7; Salmos 148.2; Isaías 6.3; Lucas
2.13,14), cumprindo alegremente sua vontade, o que inclui seus juízos. Ou seja,
a execução destes se baseia na vontade soberana e na justiça do Senhor, e não
no próprio livre-arbítrio angelical, já que os santos anjos obedecem sempre às
ordens e aos princípios divinos estabelecidos. Segue-se que é impossível a eles
praticarem erros ou injustiças no cumprimento em seu ministério. Como, em sua presciência,
o Todo-poderoso tem conhecimento antecipado de todas as coisas presentes ou futuras,
envia seus agentes para que executem o que Ele deseja (Números 22.23; 2 Samuel
24.16; 2 Reis 19.35; Salmos 35.5,6).
Os anjos eleitos protegem o povo de Deus e trabalham em seu
favor – Vemo-los, primeiramente, protegendo Israel. O texto de Daniel 12
mostra, inclusive, que Deus levantou Miguel como príncipe para lutar em favor
desse povo. Aliás, se não fosse a intervenção do Senhor por meio de seus santos
anjos, Israel não mais existiria, já que seus inimigos, alguns deles muito mais
poderosos militarmente, já tentaram riscar Israel do mapa, mas vêm sofrendo
derrotas vergonhosas. Além de proteger os servos do Senhor, de maneira geral,
os anjos ministram em seu favor, sendo enviados com a missão especial de
preservar os interesses do Reino de Deus e cuidar do bem-estar dos que lhe
servem (1 Reis 19.5-7; 2 Reis 6.14-17; Salmos 34.7; Hebreus 1.14). Isso fica
muito evidente no livro de Atos dos Apóstolos (5.19; 12.7; 27.23).
Os anjos eleitos transmitem mensagens de Deus – Ao longo
da História, o Senhor tem levantado profetas e pregadores para transmitir sua
mensagem. Mas, em casos especiais, também conta com o trabalho angelical. Lembremo-nos
da história de Jacó, filho de Isaque, o qual não conseguiu evitar as
consequências de suas más ações, mas se quebrantou diante do Senhor, que o escolheu
para dar cumprimento à promessa feita a seu avô Abraão (cf. Gênesis 12.1-3). Jacó,
então, teve uma experiencia que mudou para sempre sua vida, quando se encontrou
com um anjo no vau de Jaboque, o qual se passou por um homem (cf. Oséias 12.4).
Este, ao lutar com o patriarca e mudar seu nome para Israel, transmitiu-lhe uma
importante mensagem sobre o futuro da nação israelita (Gênesis 32.22-32).
Ainda nas páginas veterotestamentárias, um livro que apresenta
com frequência os anjos como portadores de mensagens divinas é Daniel,
especialmente a partir do seu capítulo 9. No Novo Testamento, temos o caso
emblemático de Felipe, um diácono cheio do Espírito Santo e sabedoria (Atos
6.3). Estando ele em Samaria, em meio a um grande avivamento, um anjo se lhe
apresentou, ordenando que partisse para Gaza por um caminho deserto, onde encontrou
o eunuco da rainha Candace, dos etíopes, e o evangelizou a partir de pergaminhos
do profeta Isaías. Como a Igreja — o povo de Deus neotestamentário — tem a
Bíblia, a Palavra de Deus (cf. 1 Coríntios 15.1-4; 4.6; 2 Timóteo 3.16,17), o
anjo não disse a Filipe o que deveria pregar, mas deu-lhe uma mensagem contendo
orientações sobre como deveria se conduzir (Atos 8.26-40). (3)
Finalmente, faz-se necessário destacar que o ministério dos anjos
eleitos não ficou restrito aos tempos bíblicos. Eles continuam ministrando em
favor dos servos do Senhor e os interesses do seu Reino na Terra. É maravilhoso
saber que o Senhor há posto a nossa disposição um grande exército de espíritos ministradores!
Ainda que eles não anunciem o Evangelho diretamente, têm-nos assistido nessa
tarefa gloriosa. Entretanto, não devemos, em hipótese alguma, adorá-los ou pensar
que são dignos de qualquer honra. Não! Eles são nossos conservos; não participam
da deidade, formada exclusivamente por Deus Pai, Jesus Cristo e o Espírito Santo.
Sejamos, pois, sempre agradecidos à Trindade pelo ministério providente e protetor
desses espíritos ministradores em nosso favor.
Notas
(1) HORTON,
Stanley M. et al. Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. 1.
ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. P. 189-220.
(2) HODGE, Charles. Teologia Sistemática. 1. ed. São Paulo: Hagnos, 2001. P. 474-82.
(3) PFEIFFER,
Charles F. et al. Dicionário Bíblico Wycliffe. 1. ed. Rio de Janeiro:
CPAD, 2006. P. 138-40.
por Ciro Sanches Zibordi
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