Antes de tudo, é preciso advertir que o assunto da verdade é tema muito amplo. Os pontos que se seguem são observações fundamentais, que requerem um estudo mais extenso. Nas Escrituras, a palavra “verdade” retém primeiro seu sentido comum, natural. Nesse caso, suas acepções básicas agrupam-se sob aspectos intelectuais e morais: “realidade”, “exatidão”, “genuinidade”, “legitimidade”, “validade”, “confiabilidade”, “sinceridade”. Entretanto, nas Escrituras, palavras de uso comum adquirem significados especiais, elevados, pelo fato de constituírem os meios materiais de comunicação da revelação divina. Deus, querendo dar ao homem o conhecimento necessário dos grandes fatos relativos à sua Salvação, agradou-se transmiti-los por palavras, que assumiram significados novos. Para além de seu uso normal, verdade passou a acumular significados que remetem à esfera espiritual, relacionados diretamente com a revelação de Deus.
Em sentido teológico, verdade refere-se, em primeiro lugar, ao
próprio Deus. A verdade, inclusive, é um de seus atributos, pelo qual se afirma
que Ele é absolutamente verdadeiro, em si mesmo e em tudo quanto declara. Esse
sentido da verdade estende-se, então, à realidade espiritual; se, em seu uso
comum, a verdade relaciona-se com a realidade, em seu uso especial relaciona-se
com a realidade das coisas espirituais e eternas. A verdade, em termos teológicos,
também se refere à revelação divina; com revelação queremos dizer o ato pelo
qual Deus dá ao homem conhecimentos, dele e de toda realidade espiritual, que
lhe seria impossível alcançar por quaisquer outros meios (Mateus 11.25,26). Então,
como acontece com a revelação, a verdade refere-se igualmente a Jesus Cristo, a
Palavra divina, o Revelador do Pai (João 1.18). Por ser o Filho do Pai, Ele não
somente revela a verdade, mas Ele é a verdade mesma.
Por fim, a verdade refere-se ao próprio registro da
revelação divina, as Escrituras Sagradas. A verdade outrora revelada foi, por último,
colocada na forma escrita, e esse registro inspirado corresponde agora aos livros
da Bíblia. Pelo fato de as Escrituras representarem a forma escrita da revelação,
consequentemente o conceito de verdade abrange todas as doutrinas ou ensinamentos
que derivam dela.
Considerando esses pontos, concluímos que a verdade inclui os
grandes fatos relativos à revelação divina, seu conteúdo e seus meios, desde o conhecimento
de Deus até o registro de Sua revelação: Deus (que é a verdade) revela-se (apresenta
a verdade acerca de si mesmo) ao homem por seu Filho, Jesus Cristo (que é a
verdade), e Sua revelação constitui os escritos produzidos sob a santa inspiração,
a Palavra de Deus (que é a verdade).
Definida conforme nossa descrição, a verdade não pode ser alcançada
pelo homem, no uso de suas faculdades naturais. Evidentemente, esses sentidos especiais
do termo só podem ser apreendidos mediante revelação divina; por serem sentidos
espirituais, só podem ser assimilados por uma mente em condições espirituais adequadas,
iluminada pelo Espírito Santo. Em outras palavras, a compreensão da verdade, em
suas várias referências espirituais, requer antes o conhecimento da verdade (João
17.3).
por Anderson Grangeão da Costa
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