A justificação pela fé é um dos maiores ensinamentos das Escrituras sobre a salvação de Deus aos homens. Infelizmente, esse ensinamento não é totalmente compreendido, explicado e, consequentemente, vivenciado. Trata-se de uma lacuna em muitos púlpitos. Acredito que, devido à profundidade do tema, ele não é perscrutado como deveria. Devemos agradecer a Deus que somos justificados pela fé unicamente em Cristo, mesmo sem um entendimento a contento.
Deus não leva em consideração o meu pecado quando recebo Seu
perdão. É como se fosse “riscado” diante de Deus. É como se Deus não lesse mais
o meu pecado, pois foi perdoado. No entanto, o pecado traz consequências, o que
pode ser visto em exemplos bíblicos como Davi, os juízes, líderes, reis etc. Os
efeitos do pecado permanecem e somente com o tempo eles serão apagados; no
entanto, nunca na mente do pecador, que, uma vez perdoado, passa apenas a lidar
com a lembrança dele de forma diferente. O apóstolo Paulo se referiu a si mesmo
como outrora “perseguidor da igreja” (Filipenses 3.6). Ele também disse que
“Deus não leva em conta o tempo de nossa ignorância” (Atos 17.30) e afirmou
“que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o
principal” (1 Timóteo 1.15). Essas citações mostram que as lembranças de nossos
erros não desaparecem em nós.
A justificação pela fé é um ato único e exclusivo de Deus,
por Sua graça e misericórdia. Gosto da expressão “graça”, que significa favor de
Deus. Isto é, recebo de Deus algo que não merecia. Na justificação pela fé,
Deus nos declara justos e inocentes. Não por nós mesmos, mas pelos méritos de
Cristo. Esses méritos, na expressão de Lutero, são o “tesouro da igreja”,
revelado no “puro Evangelho” (As 95 Teses, tese 62).
Há uma tendência em nós de vermos a justificação como um processo
onde há a necessidade de fazer algo para obter a graça. Essa postura foi se
desenvolvendo ao longo dos séculos, por desvio dos ensinamentos do Evangelho. Temos
no texto do Novo Testamento um jovem perguntando a Jesus o que devia fazer para
herdar a vida eterna (Mateus 19.16). Aristóteles afirmara que “tornamo-nos
justos ao praticarmos atos justos”. Esse tipo de teologia ganha notoriedade quando
Tomás de Aquino e outros se tornam aristotélicos “de carteirinha” e, com isso,
em toda a Idade Média, acreditava-se que “A quem faz o que está dentro de si, Deus
dá graça”. Assim se trata de fazer algo para ter a graça de Deus. Daí um passo
para as boas obras como condição de ser salvo será a consequência lógica.
Acrescentando a isso, temos a igreja medieval ensinando que os sacramentos são o
meio para sanar os problemas espirituais do homem, que é um irremediável
pecador precisando de um mediador, com a igreja sendo a mediadora entre o
pecador e Deus. A mediação será através dos sacramentos: Batismo, Confirmação, Eucaristia,
Penitência, Unção dos Enfermos, Ordem e o Matrimônio. Com isso, o ser humano é
ativo em relação à sua justificação. Ele precisa fazer algo.
No entanto, este ensinamento não tocava no íntimo do ser
humano, pois o pecado do homem está na raiz. De nada adianta atacar o exterior.
Pode-se até mesmo atingir o pecado no homem, porém a sua própria natureza não é
transformada. É a “graça barata”, oposta à “graça preciosa”, conforme assinalou
Bonhoeffer em sua clássica obra Discipulado. Através dessa teologia, o homem se
torna um exemplo de religiosidade, pois é “fazendo que se recebe”. Torna-se uma
pessoa escrava de sua religiosidade, com um constante fazer para aplacar a ira
e a justiça divinas. Lutero narra o momento em que se encontrava enclausurado
dentro de si mesmo em sua vida religiosa: “É verdade. Eu era um monge e
guardava tão restritamente a minha ordem que poderia afirmar que, se algum monge
poderia chegar ao céu mediante a sua disciplina monástica, eu certamente
deveria entrar [...] No entanto minha consciência não me concedia certeza”.
A justificação é o próprio Deus indo em direção ao homem. O
pecador é passivo, pois é Deus quem toma a iniciativa. As Boas Novas, que são o
Evangelho, revela essa justiça de Deus, tal como Romanos 1.17, que diz: “Porque
no Evangelho a justiça de Deus se revela, de fé em fé, como está escrito: ‘Mas
o justo viverá pela fé”. A justificação é como uma nova roupagem que Deus nos
vestiu, pois estávamos nus diante dEle. Nenhuma obra que o ser humano possa
fazer há de comprar esta justiça.
Tanto o perdão dos pecados como a justificação é o agir do
próprio Deus indo em direção ao homem, através das obras e méritos de Cristo. Diz
Lutero que Cristo “está cheio de graça, vida e salvação”. O homem após a queda
está cheio de “pecado, morte e condenação”. Quando a alma humana se une a Cristo
pela fé, um “casamento”, tal como “serão ambos uma só carne”. “Os pecados, a
morte e a condenação serão de Cristo, enquanto graça, vida e salvação serão da
alma, pois Cristo é o noivo, ele toma sobre si as coisas que são da noiva, e
concede sobre ela aquilo que é dele”. É neste contexto que o apóstolo afirma
que todos quantos foram batizados em Cristo “já vos revestistes de Cristo” (Gálatas
3. 27).
por Vantuil Gonçalves dos Santos
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