O célebre relato bíblico em torno da criação ainda é objeto de debates. Pode o estado primitivo da Terra “sem forma e vazia” ser considerado como resultado da queda do príncipe das trevas após a sua rebelião no céu?
Entre o fim do século 19 e o início do 20, alguns teólogos, como G. H. Pember (1837-1910), C. I. Scofield (1843-1921) e Nels Lawrence Olson (1910-1993), desenvolveram a ideia da Terra pré-adâmica caótica decorrente da queda de Lúcifer, também conhecida como teoria da lacuna (gap theory). Esses célebres expoentes dispensacionalistas — embora essa teoria não seja fundamental ao dispensacionalismo — afirmam que entre Gênesis 1.1 e 1.2 há milhões e milhões de anos, defendendo a ideia de que esses dois versículos tratam da criação e da destruição da Terra, enquanto os seguintes (vv. 3-31) descrevem a sua recriação. Como essa teoria se baseia numa suposição decorrente, sobretudo, da tentativa equivocada de ajustar o relato da criação da Terra à teoria da evolução, eles afirmam que a melhor tradução para Gênesis 1.2 seria a seguinte: “A terra tornou-se sem forma e vazia”. E, a partir daí, citam também, como um reforço, Isaías 45.18.
Na verdade, se a teoria da lacuna estivesse correta, haveria
uma grande contradição na Bíblia! Teríamos de admitir que o Todo-Poderoso, após
ter criado a Terra com perfeição, foi surpreendido pela queda de Lúcifer e
sofreu um grande revés, já que a catástrofe ocasionada por causa desse
“poderoso” anjo caído teria sido capaz de destruir a sua perfeita e maravilhosa
criação, deixando a Terra sem forma e vazia. Como veremos, essa teoria,
definitivamente, não decorre de uma boa exegese dos textos citados.
Começando com Isaías 45.18, quando esse profeta afirma que Deus
não criou a Terra “para ser um caos, mas para ser habitada” (ARA), enfatiza
apenas que Ele não a criou para ser vazia ou desabitada, como os outros planetas.
Quanto a Gênesis 1.2, não devemos ignorar o fato de que a maioria das versões
bíblicas empregam “a terra era sem forma e vazia” de modo correto, em lugar de
“a terra tornou-se sem forma e vazia”. Afinal, apenas seis vezes, de um total
de 264, o verbo contido em Gênesis 1.2 foi traduzido pelos eruditos por “tornou-se”.
E, nos casos em que isso ocorre, o contexto corrobora tal tradução.
Mas, por que Gênesis 1.2 diz que a Terra era sem forma e
vazia? Na verdade, os capítulos 1 e 2 de Gênesis revelam que, assim como a
humanidade foi criada, formada e feita por Deus (1.27; 2.7,18-25; cf. 1 Timóteo
2.13), o mesmo ocorreu com o planeta Terra. Depois de ter criado o mundo a
partir do nada (ex nihilo), o Criador formou-o e lhe deu o acabamento (Gênesis
1.3ss; 2.1-3). Os sete dias da criação não são eras ou períodos de milhares de
anos, como alguns teólogos afirmam, já que a primeira coisa criada foi o nosso
tempo: “No princípio”. Esses dias são, sem dúvida, de 24 horas, haja vista as
menções a “tarde e manhã” de cada dia. Portanto, em Gênesis . vemos a criação
propriamente dita da Terra. Em seguida, dia após dia, o Criador deu forma ao
informe planeta por meio da Sua Palavra (Hebreus 11.3). Usando um exemplo
simples, quando alguém faz um bolo, primeiro coloca os ingredientes sobre a
mesa (bolo informe), para, em seguida, obedecendo a uma receita, colocá-lo na
forma, assá-lo e servi-lo.
por Ciro Sanches Zibordi
Compartilhe este artigo. Obrigado.
Postar um comentário
Seu comentário é muito importante